Artistas

FRANCISCO BRENNAND

Sobre

Francisco Brennand (11 de junho de 1927) nascido no Engenho São João, aos arredores de Recife, Pernambuco. Sua família, proprietária da Cerâmica São João, contratou o escultor Abelardo da Hora para dirigir o setor de criação. Assim, Brennand, então com quinze anos, por se interessar por desenho e modelagem, acabou se tornando um aluno informal do escultor. No ano de 1943, conhece o amigo Ariano Suassuna, com quem fez ilustrações para o jornal da escola. Em 1945, conheceu o pintor Álvaro Amorim, um dos fundadores da Escola de Belas Artes de Pernambuco, o que introduz Brennand na linguagem da pintura.

No ano de 1946, Francisco Brennand começa seu primeiro ateliê em uma casa abandonada de engenho e estuda pintura com Murillo La Greca. Em 1947, envia cinco telas para o Salão de Arte do Museu do Estado de Pernambuco e recebe o primeiro prêmio por “Segunda Visão da Terra Santa”. Em 1948, envia novamente cinco telas para a Sala do Museu do Estado, e conquista o primeiro prêmio e menção honrosa. O pintor Cícero Dias, que veio de Paris para ver a exposição, se impressiona com o jovem artista e convence o pai de Brennand a deixá-lo estudar em Paris. Desse modo, no ano de 1949, Francisco Brennand vai a capital francesa. Lá, conhece as cerâmicas de Picasso, e se atenta para outros artistas que já haviam trabalhado com cerâmica, como Chagall, Matisse, Braque, Gauguin e principalmente Joan Miró.

Retornando ao Brasil em 1952, já inspirado nos processos da cerâmica, resolve realizar estágios em pequenas fábricas na Itália, para conhecer o processo industrial da cerâmica. Nesses estágios, Brennand teve a possibilidade de experimentar pigmentos e processos de queima fora dos modelos clássicos, descobrindo novos efeitos. Essa experimentação do artista foi fundamental para o seu trabalho artístico, onde podemos ver uma cerâmica única.

Francisco Brennand volta para a pintura e algumas de suas telas vão para a Bienal Hispano-Americana de Barcelona e para a exposição “Paisagem Brasileira”, no Museu de Arte Moderna de São Paulo. Em 1958, o artista instala seu primeiro mural cerâmico público, no Aeroporto Internacional dos Guararapes, em Recife.

Em 1971 inicia o seu projeto nas ruínas da Cerâmica São João, realizando esse work in progress durante anos e que permanece até os dias de hoje, onde foi alterando e “povoando” de esculturas cerâmicas o espaço da propriedade e em 1980 cria o “Pássaro Rocca”, uma das cerâmicas mais emblemáticas do templo.

Exposições Individuais (Solo Exhibitions)
1963 – Tem seu maior mural instalado na sede da Bacardi em Miami – EUA
– Instala um mural de cerâmica no Museu do Homem do Nordeste em Recife
1969 – Exposição individual de pinturas na Petite Galerie, Rio de Janeiro
– Exposição individual de pinturas e cerâmicas na Galeria Astréia, São Paulo
1971 – Instala um mural em cerâmica para a Biblioteca Pública do Estado de Pernambuco
1989 – Exposição individual na galeria do The South Bank Center, Londres
– Exposição individual na Galeria Montessanti, São Paulo
1993 – Exposição retrospectiva no Staatliehe Kunsthalle em Berlim, Alemanha
1998 – Exposição retrospectiva na Pinacoteca de São Paulo
– Exposição de esculturas no Teatro Nacional de Brasília
2000 – Exposição de esculturas e desenhos na Casa França-Brasil, Rio de Janeiro
– Exposição de esculturas e desenhos no Centro Cultural Palácio Rio Negro, Manaus
2001 – Exposição “Brennand no acerto com o mundo” na Fundação Júlio Resende em Porto, Portugal
2002 – Instala mural de cerâmica na Praça das Águas em Boa Vista, Roraima
2003 – Inaugura o museu Accademia com uma mostra retrospectiva de sua obra
2004 – Exposição individual “Brennand Esculturas: o homem e a natureza”, no Museu Oscar Niemeyer, Curitiba
2005 – Exposição “Do Barro ao Barro”, no Museu do Estado de Pernambuco, Recife
2007 – Exposição em homenagem aos seus 80 anos “Francisco
Brennand: Flores, frutos, bichos e pássaros dos anos 60, 70 e 80” com cerâmicas e pinturas, no Museu Afro – Brasil, São Paulo
– Exposição em homenagem aos 80, “Brennand – 80 – Os Desenhos” na Galeria Manuel Bandeira, anexa à ABL – Academia Brasileira de Letras, Rio de Janeiro
2008 – Exposição individual itinerante “Brennand: uma introdução”, com desenhos, esculturas e pinturas, no Centro Cultural Dragão do Mar de Arte e Cultura em Fortaleza; UFRGS – Universidade Federal do Rio Grande do Sul em Porto Alegre e no Palácio das Artes – Fundação Clóvis Salgado em Belo Horizonte

Exposições Coletivas (Group Exhibitions)
Participa com pinturas da exposição “Paisagem Brasileira”, MAM-SP
1961 – Participa com pinturas em exposições no Recife e Belo Horizonte, e em Salvador no Museu de Arte Moderna da Bahia
1966 – Participa com doze pinturas da XXI Bienal de São Paulo
1978 – Participa da mostra The Original and its Reprodution, Washington DC e Filadélfia, EUA
1981 – Participa da exposição Coleção Gilberto Chateaubriand, no MAM-RJ
1990 – Participa da 44ª Bienal de Veneza, Italia
1992 – Participa da Expo 92 em Sevilha, Espanha
– Participa da exposição “Imagens do Brasil” em Zurique, Suíça
1995 – Participa da II Bienal do Barro em Caracas e Maracaibo, Venezuela
– Exposição coletiva “Os anjos estão de volta” e “Esculturas brasileiras na Luz” na Pinacoteca do Estado de São Paulo
– Exposição coletiva “Ferreira Gullar 70 anos – Poesia & Poesia”, Rio de Janeiro
2001 – Integra o maior parque de esculturas a céu aberto da Europa em Oeiras, Portugal
2003 – “Coluna da Primavera”, escultura para o Museu Brasileiro de Esculturas – MUBE, São Paulo
– Exposição “MAC USP 40 Anos: interfaces contemporâneas”, no MAC/USP, São Paulo, SP
2008 – Exposição coletiva “A arte que banha o Nordeste”, com esculturas e pinturas, no Palácio dos Bandeirantes, São Paulo
– Participa com a escultura “Os Gêmeos” no Salon National Des Beaux-Arts 2008, Carrousel Du Louvre em Paris, França
2015 – Participa da exposição coletiva “Território Sagrado”, da Galeria Diretriz Arte Contemporânea

Prêmios
1947 – Prêmio do Salão de Arte do Museu do Estado de Pernambuco, pela pintura “Segunda Visão da Terra Santa”
1948 – Prêmio e menção honrosa na Sala do Museu do Estado, por suas pinturas.
1966 – Premiado na I Bienal da Bahia, participa em uma Sala Especial
1985 – Artista convidado da XVII Bienal de São Paulo
– Artista convidado para a XX Bienal de Óbidos, Portugal
– Ganha prêmio Interamericano de Cultura Gabriela Mistral, pela Organização dos Estados Americanos – OEA em Washington DC, EUA
2003 – Artista homenageado no VII Simpósio Internacional de Escultura do Brasil, no Kartódromo Municipal de Brusque, Santa Catarina

Textos Críticos

Danação da beleza por Ferreira Gullarntro desse parâmetro que criou o seu universo estético.

Independente do tamanho do talento, há artistas que, por assim dizer, se transportam de tal modo para a obra que se tornam ela, e outros que, pelo contrário, não cabem nela, transbordam, por mais obras que façam e caminhos que inventem. Matisse e Morandi, por exemplo, pertencem àquela primeira categoria, enquanto Picasso pertence à segunda. E o pernambucano Francisco Brennand também.Fora isso, Brennand tem pouco a ver com o espanhol, conquanto seja verdade que, como ele, não cabe no que faz, por mais que o faça. E não tem feito pouca coisa, em diversas linguagens: a da cerâmica, a da escultura, a da pintura, a do desenho e até mesmo a da arquitetura, se se leva em conta a transformação que operou na antiga fábrica de cerâmica da família, transformando-a numa espécie de templo. Mas templo de que? De religião nenhuma? Não resta dúvida de que há qualquer coisa de sagrado nesse conjunto, em que uma construção arquitetônica comum – uma fábrica – ganhou transcendência em função das estranhas figuras que a cercam agora, fazendo evocar templos egípcios, babilônicos ou gregos.

Não se trata disso, porém, já que as tais imagens nada têm dos deuses que aqueles povos cultuavam. Estas, de Brennand, não são deuses, são figuras nunca vistas antes, às vezes mescla de gente e animal, entes que parecem nascer do inconsciente profundo do artista, de suas fantasias eróticas, libidinosas, plenas de desejo e culpa.

Se em algum momento, ocorreu a ele criar ali algo semelhante a um templo, concebeu-o deliberadamente no extremo oposto àqueles das antigas civilizações: neste, pernambucano, não se busca a beleza e o sagrado dos templos egípcios e gregos, mas o “feio” como a outra face do mistério. Na verdade, o diálogo que Brennand trava ali como o passado é para afirmar, por assim dizer, a danação da beleza. E nisso ele é, a seu modo, um artista moderno.

Sim, mas um artista moderno pernambucano, nascido de uma família tradicional, que começou plantando cana, produzindo açúcar e voltou-se, depois, para a fabricação de cerâmica que, historicamente muito anterior à produção açucareira, tornou-se, na época moderna, eminentemente urbana. Pois bem, se me detenho nessas considerações aparentemente distantes do meu tema é que pressinto, nesse processo familiar, as fontes da arte de Brennand. Nele parecem ressoar os ecos de uma aristocracia pernambucana de que ele é um último rebento, que a herda, mas a denega nas figuras inusitadas que inventa e que certamente horrorizariam a seus antepassados.

É verdade que nada dessa herança histórico – familiar teria importância se ele não tivesse nasci – do com um extraordinário talento de artista. Como, porém, o talento é apenas uma potencialidade a ser tornada efetiva por quem o possui, a sua efetivação implica as características da personalidade do artista, de sua história pessoal e familiar, como a formação cultural e as opções ideológicas e estéticas que faça. Donde se conclui que, se Francisco Brennand, mesmo com a história pessoal que tem, houvesse feito outras opções intelectuais, diversas das que fez, seria certamente um artista distinto deste que conhecemos. É que os artistas, como as demais pessoas, se inventam, conforme suas possibilidades e necessidades, sejam afetivas, éticas ou estéticas. Pode-se, portanto, afirmar que o artista Brennand não é o fruto inevitável dessa história pessoal e familiar e, sim, o resultado de sua capacidade artística criadora e de uma personalidade original.

Por isso, quando hoje o imaginamos, sozinho, a criar suas obras na solidão daquela antiga fábrica de cerâmica – por ele transformada em santuário artístico – não deixa de ser o último herdeiro de um ramo da aristocracia rural pernambucana, hoje praticamente extinta. Só que este homem octogenário, que agora habita o solar da família, em vez de preocupar-se com o canavial e o engenho de açúcar, ocupa-se da realidade onírica deste mundo fantástico que inventou.

Disse que Francisco Brennand é um artista moderno e, porque o é, filia-se à tradição artística que começa com o Impressionismo, na segunda metade do século XIX e ganha radicalidade no Cubismo, em começos do século XX. O fator básico dessa nova linguagem artística é a valorização da expressão sobre a imitação do real, que caracterizava a arte consagrada do passado. Com o Cubismo, essa autonomia da linguagem artística atingiu seu ápice e provocou o surgimento, entre outras tendências, da pintura não-figurativa, como foi o caso do Neoplasticismo de Piet Mondrian, que viria desembocar na arte concreta e neoconcreta. Brennand não vai até lá, nem como escultor nem como pintor e desenhista. Manteve-se fiel à expressão figurativa e foi dentro desse parâmetro que criou o seu universo estético.

É verdade, porém, que esse universo inegavelmente brennandiano mostra-se diferenciado, quando ele trabalha como escultor ou quando trabalha como pintor e desenhista. Aliás, nele, o desenho está muito próximo da pintura, embora não exclua os recursos essencialmente gráficos, próprio a essa linguagem específica. Já quando entra em ação o escultor, uma drástica mudança se opera e o lado oculto das coisas parece revelar-se ao artista, que nele mergulha e o traduz em imagens perturbadoras, concebidas no limite da realidade e do delírio.

Ferreira Gullar
Escritor, poeta, crítico de arte, biógrafo, tradutor, memorialista e ensaísta brasileiro e um dos fundadores do neoconcretismo.

Fonte: O universo de Francisco Brennand / textos de: Alexei Bueno.[et al.];
prefácio de: Ferreira Gullar. – Rio de Janeiro : G. Ermarkoff, 2011. 320p.: principalmente il. col.,; 28 cm.

A obra de Francisco Brennand por Mariana Kreusch

Segundo o escritor Ferreira Gullar em seu texto “Danação da beleza” de 2011, Francisco Brennand é um artista que não cabe em sua obra. Múltiplo, trabalha e muito, com as linguagens da pintura, da cerâmica, do desenho. Desde os anos setenta, realiza seu work in progress nas ruínas da Cerâmica São João – de sua família – e no que hoje se transformou em uma espécie de templo. Templo esse que não nos remete à uma religião, mas traz a persuasão de algo que é sagrado. Porém como diz Gullar: o templo é concebido como o oposto daqueles das antigas civilizações. Brennand trata talvez do “feio” como a outra face desse mistério. Ele comentou em uma entrevista para a Folha de São Paulo em 2013:

“Lá na saída me deparo com o motorista, que bate no meu ombro e diz: “Isso parece o Egito”. Quando ele disse essa frase, eu de imediato pude verificar que ele estava à procura de uma analogia, porque o que ele queria dizer era que isso aqui é misterioso. Porque na realidade, quando você fala no Egito você se aproxima de um segredo (…) eu descobri que, pela voz dele, de um homem do povo, eu estava no caminho certo, porque o mistério perdurava. Eu não me preocupei mais, continuei daí em diante a fazer o que eu deveria fazer.” (BRENNAND, 2013)
Assim, Brennand nos joga o mistério e toda essa magia que permeia suas obras, seja pelas figuras, pelas formas, ou até mesmo pelo próprio material, o barro que se transforma em cerâmica, que vem dos elementos terra, água, fogo e ar – como pontuou o poeta Alexei Bueno em 2011 no texto “O universo de Francisco Brennand”. Elementos que nos fazem humanos.

Aí está o principal fio condutor da obra de Brennand, suas esculturas cheias de configurações que lembram ora humanos ora animais (mas nunca deuses), todo esse imaginário do artista nos coloca cara a cara com o mistério da nossa vida e existência, palpável, e não espiritual. Aí está toda a sensualidade: o mistério somos nós mesmos.

Mariana Kreusch
Graduada em Artes Visuais
Galeria Diretriz Arte Contemporânea