Artistas

GERMAN LORCA

Sobre

German Lorca (1922 – São Paulo/SP). Fotógrafo, sua produção foi essencial para estabelecer os conceitos e aspectos visuais da fotografia moderna brasileira.

Formado em Ciências Contábeis, Lorca começa a fotografar em 1949. Em 1945, integra o Foto Cine Clube Bandeirantes, um dos mais tradicionais e importantes fotoclubes brasileiros.Lorca e outros fotógrafos pioneirosque atuavam no FCCB (Geraldo de Barros, Thomas Farka), também possuíam uma produção fotográfica experimental. Além de suas fotos autorais, Lorca também trabalhou com retratos de personalidades, reportagens e publicidade.

Na década de 40 e 50 produziu algumas de suas imagens mais prestigiadas, registrando a paisagem do centro de São Paulo e o espírito da época. Dentre elas, Malandragem (1949)¹, À Procura de Emprego (1948)² e Menino Correndo (1960)³.

Em 1952 abre estúdio próprio e em 1954 é convidado a participar como fotógrafo oficial das comemorações do IV Centenário da Cidade de São Paulo. A partir de 1954, dedica-se unicamentea fotografia e vai se tornando referência na fotografia artística brasileira. Nos anos 90, sua produção e carreira como fotógrafo se estabeleceu e foi muito mais reconhecida. Suas fotografias abrangem um período de mais de 60 anos.

Principais Prêmios e Realizações
Prêmio Colunistas – revista Meio & Mensagem (1985 e 1989)
Prêmio Governador do Estado para Cultura – Museu de Arte Moderna de São PauloMAM/SP– 1952
Medalha ouro – concurso fotográfico latino-americano Alejandro C. Del Conte -Buenos aires, Argentina.
Medalhas do Câmera Club, Salone Internazionale dela Técnica e da X Mostra Internazionalledi Fotografia Artística – Turin, Itália.
Prêmio Governador – Instituto Tomie Ohtake
Folha de ouro – Jornal Folha de São Paulo – 1963
Fotógrafo oficial das comemorações do IV Centenário da cidade de São Paulo
German Lorca – livro Editora Cosac Naify

Exposições Individuais
– Museu de Arte Moderna São Paulo, Brasil, 1952 e 2001
– Galeria São Luiz, São Paulo, Brasil, 1966
– Museu de Arte de São Paulo, Brasil, 1955
– Li Photogallery, São Paulo, Brasil, 1995
– II Bienal Internacional de Curitiba – Sala Especial, Curitiba, Brasil, 1998
– Exposição Individual no MAC – Museu de Arte Contemporânea da USP, São Paulo, Brasil, 2004
– Retrospectiva 60 anos de fotografia na Pinacoteca do Estado de São Paulo – Sala Especial, São Paulo, Brasil, 2007
– German Lorca, Fotografia como Memória no Museu Oscar Niemeyer, Curitiba, Brasil, 2008
– Um olhar imaginário, Centro Cultural da Caixa, Brasília, 2010, Rio de Janeiro, 2010 e São Paulo, 2011, Brasil
– German Lorca – Acontece ou Faz Acontecer, MAM – Museu de Arte Moderna, São Paulo, Brasil, 2012
– German Lorca – Fotografias de Época, Fass Galeria, São Paulo, Brasil, 2012
– Urbanas, fotografias de German Lorca – Casa da Imagem, São Paulo, Brasil, 2012
– Exposição lançamento do livro “German Lorca”, Espaço Cult, São Paulo, Brasil, 2013

Exposições Coletivas
– Foto Cine Clube Bandeirante, São Paulo, 1951
– Buenos Aires, Argentina, 1952
– Revista Camera Suiça, 1953
– La Fotografia, Veneza, Itália, 1979
– Mês Internacional da Fotografia, São Paulo, Brasil, 1993 e 1995
– I Bienal Internacional de Fotografia da Cidade de Curitiba, Brasil, 1996
– Coleção Pirelli Masp de Fotografia, São Paulo, Brasil, 1998
– Galeria Kultur Fabric, Koln, Alemanha, Acervo MAM – São Paulo, Brasil, 2001
– Galeria 68 ELS, Koln, Alemanha, Acervo MAM – São Paulo, Brasil, 2001
– Luxemburgo, Acervo MAM – São Paulo, Brasil, 2003
– Galeria Porto Seguro de Fotografia, São Paulo, Brasil, 2003
– MAM na Oca, São Paulo, Brasil, 2007
– A Gosto da Fotografia, Bahia, Brasil, 2008
– Coleção Itaú de Fotografia Brasileira, no Paço Imperial, Rio de Janeiro, Brasil, 2012
– O Elogio da Vertigem, Coleção Itaú de Fotografia Brasileira, Maison Européene de La Photographie (MEP), Paris, França, 2012
– Chapel Art Show, São Paulo, Brasil, 2012 e 2014
– Moderna para Sempre, Itaú Cultural, São Paulo, Brasil, 2014
– Território Sagrado, Galeria Diretriz Arte Contemporânea, Curitiba, Brasil, 2015

Textos Críticos

German Lorca: o tempo em movimento por Rubens Fernandes Junior

Estar diante das fotografias do paulistano German Lorca é experimentar uma sensação de felicidade plena. Quando aprofundamos nosso olhar para suas imagens, de algum modo ficamos emocionados. Seja pelo tempo passado que as fotografias evocam e nos permitem reviver, seja pelo rigor e pela qualidade técnica intrínseca ao fazer fotográfico, seja pelo encantamento puro e simples que emana de sua poética visual.

Lorca tem quase sessenta anos de intensa atividade no mundo da fotografia. Contador por formação, descobriu a fotografia quando os números, os balanços, os créditos e os débitos já o aborreciam. Encantado com a fotografia desde que a vislumbrou como possibilidade de registro e manifestação, percebeu logo que trabalhar nessa atividade poderia ser a opção mais viável para sair daquele mundo profissional técnico, repetitivo e sem muita criatividade.

No final da década de 1940 começou a frequentar o Foto Cine Clube Bandeirante de São Paulo, tornando-se rapidamente um dos mais assíduos participantes dos concursos e dos salões promovidos pelo movimento fotoclubista, que premiavam os melhores trabalhos. Hoje, com o necessário distanciamento histórico, podemos afirmar que German Lorca, ao lado de Geraldo de Barros, Thomaz Farkas, Chico Albuquerque, Eduardo Salvatore, Benedito Junqueira Duarte e José Yalenti, entre outros, é parte do grupo dos pioneiros que desenvolveram a fotografia moderna no Brasil.

Atuou profissionalmente desde 1954, quando se instalou no mercado com seu próprio estúdio. Mas foi em seu trabalho pessoal que ele elaborou uma visualidade criativa para o mais prosaico dos cotidianos. Perspicaz e atento, soube aproveitar ao máximo sua facilidade de potencializar esteticamente as cenas banais, com a finalidade de enfatizar a autonomia do código fotográfico. Luz, sombra e composição apurada emergem com naturalidade nas suas imagens, que denotam liberdade na imaginação e atenta observação.

O reconhecimento do seu trabalho autoral veio na esteira do desenvolvimento de seu trabalho no mercado, seja na fotografia publicitária, onde se destacou durante mais de três décadas, seja nos retratos, principalmente de crianças, especialidade que lhe deu enorme experiência. A constante busca entre a técnica fotográfica e o prazer pessoal, aliada ao seu espírito irrequieto e empreendedor, é que o levou ao mundo da publicidade que, naquele momento, iniciava-se com a implantação das primeiras agências no país. É curioso notar, em sua trajetória como profissional da fotografia, as parcerias que momentânea e casualmente foram acontecendo. Lorca fotografou o casamento de Haroldo de Campos; Geraldo de Barros utilizava seu laboratório quando eram vizinhos no Brás; Gaspar Gasparian, empresário bem-sucedido da área têxtil, era cliente do escritório de contabilidade em que trabalhava; Chico Albuquerque, que mantinha seu estúdio na avenida Rebouças; Alexandre Wollner, Luis Hossaka e Pietro Maria Bardi, do Masp, e muitos outros que se tornaram amigos de toda a vida. Essas amizades, baseadas na troca recíproca de experiências e vivências, é que balizaram sua ética e seu caráter profissional.

Nos anos 50 Lorca produziu uma fotografia diferenciada e das mais inventivas entre as que conhecemos. Tanto na série “São Paulo 1954”, quanto na série desenvolvida especialmente para o Foto Cine Clube, temos hoje a sensação da nostalgia do tempo passado. Claro que a cidade mudou radicalmente, perdeu o encanto da então metrópole emergente, mas o olhar de Lorca sobre ela é singular. O que nos toca é exatamente essa distância temporal da cidade e de seus habitantes que não existem mais, mas que sobrevivem magicamente na fotografia. Além disso, a série “Foto Clube” traz a essência da qualidade da fotografia produzida no período – composições baseadas na repetição das formas, na simetria dos elementos compositivos, na contraluz, nas solarizações, entre outras possibilidades de expressão fotográfica.

Lorca sabe expressar suas inquietações assumindo que o trabalho estético está subordinado a composição. Formalista e quase sempre figurativo, ele enfrenta qualquer situação para dar evidências do seu conhecimento e da sua experiência na fotografia. Por isso mesmo, suas imagens são de um encantamento imediato, pois é difícil não reagir diante de um olhar tão preciso, que parece provocar a gostosa sensação de veracidade e, ao mesmo tempo, uma estranha celebração do enigma da visibilidade.

Sua fotografia é essencialmente direta e sem artifícios. Apresenta-se como uma visão de aparente simplicidade, mas na realidade é aí que reside sua ordem essencial e desestabilizadora. É quase impossível ficar indiferente às imagens de Lorca, pois elas assumem um caráter de registro de uma situação de tempo alongado, e adquirem uma espécie de nobreza que as eleva a uma subjetividade difusa.

Sempre entusiasta e inventivo, Lorca criou, com audácia e coragem, uma obra que se reveste de incontestáveis qualidades plásticas e que de alguma forma enfatiza uma mensagem visual de sofisticada elegância. Através da sua fotografia podemos compreender melhor e mais profundamente o mundo contemporâneo, pois ele cria imagens que restituem a geometria e o rigor formal de um mundo visível que se apresenta em permanente estado de convulsão.

Rubens Fernandes Junior
Jornalista, curador e crítico de fotografia
Doutor em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP
Professor e diretor da Faculdade de Comunicação
da Fundação Armando Alvares Penteado (Facom-FAAP).