Em Exposição

A Construção da Geometria

RIGOR E MAGIA NA OBRA DE LAZUR

Como diz Kandinsky (1912), “é a harmonização do conjunto na tela que realiza a obra de arte”. Com certeza, é a harmonia que vejo nos trabalhos que Paulino Torrubia Lazur. Acompanho, de perto, a carreira do artista, mas não deixei de me surpreender, mais uma vez, com o rigor estético com que executa seu trabalho. Continua perceptível, para mim, que a construção de seus objetos e pinturas se inicia em algum momento no pensar uma nova obra. Ao passar primeiro para o papel e depois para o veículo de sua escolha, ele a aprimora ainda mais e se pode constatar, então, que é meticulosamente construída. Mas não somente isto, vejo ainda neste instante uma extrema sensibilidade na organização do espaço, no uso das cores.

É passível de se compreender que estão subjacentes os referenciais à arquitetura e, também, à marcenaria, pontos de partida para entender sua obra; são vínculos com trabalho profissional anterior à sua dedicação exclusiva à manifestação artística. Essas premissas nos dão a noção de uma busca quase intransigente sobre o domínio do material, seja a própria tela, a tinta ou os recortes em madeira e alumínio.

Paulino parte sempre de um plano básico onde a clareza, a simplicidade e o rigor são o parti pris de sua obra. Apolíneo, quase não há brechas em seu raciocínio e não há displicência em sua postura. A coerência pictórica é manifestada através de uma necessidade interior premente de como se mostrar ao mundo.
O geométrico, ele o reinventa a partir de obras elaboradas no final dos anos 1980 – as ‘indigenárias’ -, agora com muito mais rigor. A primeira obra, e como anteriormente citado já elaborada mentalmente, aquela que deu início à série foi a construção de um ‘objeto-pêndulo’, em madeira e alumínio (lições de marcenaria!). Nesses objetos pendulares, bipolares, ele mistura, sem medo, tipos de madeira (mogno/marfim, roxinho/itaúba) e alumínio, elaborando formas de cores. A utilização de materiais díspares o interessa na medida em que propiciam a criação de uma nova possibilidade, novas formas, nova expressão, e que nos asseguram que podem ser juntadas e que podem ter conexão.

Misturando elementos, acrescenta-lhes momentos de tensão e ruptura e intersecção e proximidade, em que o espaço está sempre presente simultaneamente com o tempo. Através de círculos, quadrados e triângulos ele insere novos elementos que nos faz perceber conexões com símbolos universais, estéticos, filosóficos ou religiosos: negativo/positivo, quente/frio, mandalas/maçonaria. Nos círculos, por exemplo, deixa visível várias camadas de madeira que nos remetem a ciclos geológico/cósmicos, tal como se fossem o registro mesmo das etapas de sua pesquisa processual. No triângulo, ele acentua nosso foco de visão com um ponto central: o terceiro olho!

Através de planos, linhas e volumes, o artista resgata formas puras e precisas que muito se relacionam com perfis de edifícios e construções urbanas. São pinturas em acrílico com pincelas que, em certa medida, desnudam o interno dessas edificações, quase à maneira do cubistas de primeiro tempo com sua obsessão de pintar os objetos em todas as suas dimensões. Círculos, triângulos, quadrados, pontos, retângulos, precisão de linhas, formas e estruturas são intensificadas pelo uso de cores. Na mistura desse elementos e do acréscimo de tensão e ruptura, o artista nos remete a questões inerentes ao urbano, desde o sensorial ao simbólico e das possibilidades expressivas que nossa percepção possa captar.

Como sempre em sua obra, ele transporta o objetual para a superfície da tela, criando visibilidades novas: o vai-vem de uma fórmula à outra. Ao pintar as figuras geométricas, ele escurece sua paleta para que a forma se impregne, ainda mais, desse geometrismo: abusa dos vermelhos, terras e pretos. Ao abolir a moldura ele insere uma outra maneira de atrair a realidade exterior para o interior de sua obra.

O pêndulo e suas variantes se constitui em importante figura em sua relação entre formas e cores. Símbolo do tempo, se contrapõe à espacialidade de formas e cores: a forma tem sua representatividade, a cor sua expressividade. A simbologia que encontramos em sua obra, ele as induz e fica na pendência das relações que possamos fazer segundo nosso olhar, conhecimento, cultura e interpretação de mundo.

Em sua pintura o efeito sensorial é delicado e se dá através das modalidades de ação da cor, sobrepondo camadas de tinta até atingir a nuance desejada. Às vezes introduz uma forma/cor contrastante, como um estranho no ninho, para, segundo ele próprio, “provocar/brincar com o público e sua percepção do trabalho”. Sabe usar muito bem a superfície telar. Abusa do inter-relacionamento de proximidade e distanciamento que propõe entre o objeto e o observador. A perfeita estrutura que consegue pode e deve ser interpretada como uma revisão da construtividade geométrica, mas à qual não falta, também, uma forte dose de expressividade. A simbologia é inerente e universal. Encontra-se no nosso consciente e no dele, no inconsciente coletivo. O modo como o espaço é utilizado e a maneira como trabalha formas e cores, instigam nosso olhar, multiplicam as perspectivas e possibilidades e nos conduzem a trabalhar nossa própria percepção. Suas ferramentas são a linha, a cor, a forma, elementos com os quais trabalha seu rigor artístico e nos brinda com magicidade.

Elvira Vernaschi, 2016
Historiadora e crítica de arte, membro das Associações
Brasileira e Internacional de Críticos de Arte- ABCA e
AICA


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