Em Exposição

Intensidades sensíveis

Começo lançando mão de duas imagens. A primeira, Étant Donné, obra de Marcel Duchamp feita entre 1946 e 66, e exibida após a sua morte, em instalação permanente no Philadelphia Museum of Art. É uma instalação em que o espectador se vê diante de uma porta rústica, como essas de fazenda, e é convidado a olhar por uma fenda na porta. O que se vê: parte de um corpo nu deitado sobre a grama, sua mão segurando um lampião; ao fundo, vê-se uma paisagem e uma cachoeira, que volta e meia brilha, como aqueles badulaques da China. Se você não conhece o trabalho, parece um diorama visto pelo buraco de uma fechadura. A segunda imagem é de Lygia Pape (1999), com o mesmo título acrescido de um ponto de interrogação. É uma releitura da obra de Duchamp em que a artista inclui o seu rosto numa colagem digital que completa a imagem do corpo visto através da fenda da porta no original.

Para Marcel Duchamp, a obra de arte não é fruto da suposta genialidade inata de seu criador, mas uma construção racional. Buscava inventar não só outro tipo de arte, como também um novo tipo de espectador, despido de suas expectativas habituais e passivo diante da obra artística. Étant Donné é mais que uma imagem. Na verdade, é uma transposição de linguagens. Elementos escultóricos e pictóricos são usados para criar uma imagem, pois o trabalho apenas se concretiza ao olharmos a instalação pela fenda na porta. Vemos apenas a imagem, o trabalho, e não os elementos de sua construção. Lygia Pape, quando repete esse trabalho personificando a obra com o seu rosto, ressignifica a relação entre o que é dado e o que é visto pelo espectador. Ela parte da imagem que é vista pela fenda da porta fotografada, mas que é apenas uma camada do trabalho de Duchamp: a fotografia reproduzida e disseminada pelos livros de história. O trabalho de Duchamp é a experiência de ver tal imagem através da fenda. Já no de Lygia Pape, a imagem é dada em primeira instância, apropriada e colada. Operando de forma pós-moderna, pós-estruturalista, Lygia constrói relações e estruturas a partir do que já está posto, como se constroem palavras e frases a partir de um alfabeto.

A exposição “Intensidades Sensíveis”, que apresentamos na Zuleika Bisacchi – Galeria de Arte, traz ao público quatro artistas que iniciaram sua produção nos anos 2000. Daniel Duda, Juliana Gisi, Lailana Krinski e Samuel Dickow recolocam, cada um a sua maneira, algumas questões que Marcel Duchamp apontava ao fazer Etant Donné, ao mesmo tempo que nos remetem aos procedimentos de Lygia Pape; seus trabalhos formam-se pela sobreposição de procedimentos técnicos e narrativos, pela transposição de linguagens e apropriações.

De Juliana Gisi temos “Incidente Luminoso”, uma série de fotografias que trata de um tema que é, na verdade, a própria fotografia: o registro da luz ou a capacidade de captá-la. As imagens são feitas em longa exposição durante o entardecer, naquele momento chamado de lusco fusco. Devido à mudança rápida de luz, o registro que se vê são cores não naturais, invisíveis ao olho nu, com um céu às vezes roxo, em outras prateado, e formas captadas pela câmera fotográfica durante aquele tempo específico. Duchamp se vale da luz e materiais artificiais para criar esse mesmo aspecto. Nas fotografias de Juliana, a câmera assume o lugar da fenda de Étant Donné, sem o suspense da porta, e nos dá uma imagem possível apenas pelas características técnicas do equipamento. Nas palavras da própria artista: “O registro que vemos não é a captura de uma cena, mas do seu estado quando registrada no tempo de duração da exposição, por uma câmera fotográfica, ao entardecer, como uma experimentação da captura do modelado da luz”.

Daniel Duda, trabalha principalmente com vídeo, ou seja, imagens em movimento. O apresentado nessa exposição é parte da série Ecos, de 2015, na qual o artista registra água corrente como fluxos de movimento. Duda inscreve uma série de linhas que se transformam em planos que, colocadas sobre a imagem, seguem o movimento de um determinado ponto, como se fatiassem a imagem e expusessem os fluxos de ritmo e velocidade. Como Lygia Pape, Duda não se contenta com a imagem que é dada, ou Étant Donné, mas constrói novas estruturas que criam fluxos entre as partes, desdobrando-se em tempo. As linhas criam desenhos abstratos, estruturas sobre a imagem de uma paisagem natural, como se extraísse dela um esquema, um desenho, sua estrutura mais primária. De Duda temos também uma fotografia que é um desdobramento dessa série, na qual o artista cria desenhos reverberações das formas das cenas registradas. Ele as sobrepõe às imagens, dessa vez em um objeto tátil, com camadas de acrílico.

Já nos trabalhos de Samuel Dickow a pintura constrói uma equação em que somam-se e multiplicam-se procedimentos. Em seu trabalho mais recente, apresentado aqui, “Game Over”, essas relações entre os diferentes procedimentos de construção da imagem se tornam mais evidentes. A imagem apropriada, uma foto de um abatedouro, é projetada, desenhada e posteriormente pintada, mas é apenas parte da obra. Está inserida numa superfície branca que nos remete à parede de uma sala ou uma página em branco, que é pintada com tinta de parede. Sobre esta tinta, projeta-se a sombra de uma planta que em seguida é também pintada. Depois de todos esses procedimentos, as distintas pinturas da imagem reproduzida, da parede e da sombra da planta são fechadas em uma moldura com vidro. Isso reforça o caráter de imagem da pintura, por nivelar todas as camadas e acrescenta mais uma: o exterior à obra, refletido no vidro da moldura. A relação de figura e fundo, que para Lygia Pape foi objeto de pesquisa e expansão do seu trabalho, para Samuel é uma prática consciente que participa do processo, já que escolhe incluir o espaço externo, por meio do reflexo, como parte de sua obra.

O trabalho de Lailana Krinski também se constrói em camadas. Sua pesquisa, apoiada no desenho, muitas vezes projeto de objetos e instalações, não pode ser definida como uma pesquisa específica de linguagem, mas como uma busca de salientar suas relações mais intrínsecas. Nessa exposição, temos um desenho de projeto de escultura e instalação feito com pasta de modelar, com relevo e densidade. O material branco, repetidamente aplicado no papel, dá corpo ao desenho e traz a escultura à tona; Lailana se vale do elemento tátil, ainda que o trabalho permaneça visual. A imagem da cortina, ou o corpo, como chama a artista, tem um volume tridimensional que se projeta para fora do papel, quase numa relação contrária com Marcel Duchamp, pois toda a construção de Étant Donné se dá sobre a sedução do ilusionismo da perspectiva da imagem. Essa imagem tátil, a cortina, provoca no espectador uma curiosidade sobre o que há por trás daquele volume, assim como suas esculturas despertam um interesse sobre o material de suas obras. As texturas e densidades diferentes dos materiais, preferencialmente brancos, chama muito mais a atenção para aspectos como porosidade, lisura, temperatura. Na instalação de Marcel Duchamp, a relação é totalmente outra: uma pintura toma o lugar de uma paisagem natural; uma escultura em couro, o lugar de um corpo de verdade; uma lâmpada, o lugar de um lampião a gás.

A aproximação dos Étant Donné de Duchamp e Lygia Pape com as obras dos quatro artistas dessa exposição deixa claro, para mim, que a produção artística contemporânea está em constante busca da integração das esferas estética, ética e política, muito defendida por Lygia Pape, tanto em suas relações com a atualidade, quanto na troca com sua própria história. Foi na geração de Lygia Pape que os artistas brasileiros penetraram a fundo nas ideias europeias e americanas, sem cerimônia ou sentimento de inferioridade. Isso se reflete na produção nacional até hoje. No caso de Daniel, Juliana, Lailana e Samuel, os trabalhos refletem as discussões do campo da arte hoje, mas principalmente apontam relações de troca direta com a história da arte, como letras num alfabeto que, combinadas, constroem palavras, frases, histórias e conhecimento.

Ana Rocha, abril de 2016

Daniel Duda

Daniel Duda é artista visual atuante em Curitiba, Brasil. Ele investiga diálogos entre o real e o artificial, imagem e representação. Seus trabalhos exploram fotografia, vídeo, e objetos.

Sua pesquisa se iniciou com o objetivo de construir imagens que transitem entre o meio digital e a concretude física; a maneira como o meio digital pode constituir objetos ficcionalmente tangíveis, mas principalmente, explicitar de que maneira ocorre a sutil troca entre homem/máquina e meio/tecnologia. Pretende desta forma, recuperar e estabilizar os vestígios materiais advindos das novas tecnologias de criação digital.

Natural de Curitiba/PR, é bacharel em Cinema e vídeo, e pós-graduado em história da arte moderna e contemporânea pela Escola de Belas Artes do Paraná. Iniciou sua pesquisa em poéticas visuais em 2005, sendo logo contemplado com a Bolsa Produção para Artes Visuais da Fundação Cultural de Curitiba, participando de diversas exposições e salões de arte desde então.

Daniel Duda Ecos#3, 2015 vídeo full HD, 41″ (looping)

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Destacam-se as participações em 3 edições do FILE São Paulo (2009, 2011 e 2015) e FILE Rio (2010 e 2012). Foi convidado a apresentar seu trabalho no 64o Salão Paranaense, em 2012, sendo agraciado com o prêmio residência artística do salão. Em 2013 fez parte da XX Bienal Internacional de Curitiba e recentemente ganhou o prêmio do 5o Salão dos Artistas Sem Galeria, realizado na Galeria Zipper e Casa da Xiclet, em São Paulo/SP. Em 2016 realiza 2 individuais em Curitiba, denominadas “Sólidos” e “Vídeos e outros objetos digitais”.

Juliana Gisi

Possui graduação no Curso Superior de Pintura pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (2000), Especialização em História da Arte do Século XX, pela Escola de Música e Belas Artes do Paraná (2002), Mestre em Educação pela Pontifícia Universidade Católica do Paraná (2004), Doutora em Artes Visuais, linha de História, Teoria e Crítica de Arte, pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (2013). Atualmente é professora da Universidade Federal do Paraná.

Participou de exposições como NAU-Estación para el desarrollo de acciones visuales, (fotografia), exposição coletiva, Colegio Fonseca, Salamanca-Espanha, 2003. Desvios (fotografia), exposição individual, Bolsa Produção para Artes Visuais 4, Museu da Fotografia – Solar do Barão, 2010. Estado da Arte (fotografia), exposição coletiva, Museu Oscar Niemeyer, 2010. Malote (vídeo), exposição coletiva, Museu da Fotografia – Solar do Barão, 2011. Caixa d’água (fotografia), exposição coletiva, Museu da Fotografia – Solar do Barão, 2013. Em 2015 publicou o livro 60/70: as fotografias, os artistas e seus discursos elaborado a partir de sua tese de doutorado, como resultado do XIV Prêmio Marc Ferrez de Fotografia da Funarte.

Lailana Krinski

Lailana Krinski, Curitiba-PR, 1986. Trabalha como artista, crítica de arte e educadora. Bacharel em Artes Visuais, pela Universidade Tuiuti do Paraná, em 2008. Especialista em História da Arte Moderna e Contemporânea pela Escola de Belas Artes do Paraná, em 2012. Coordenadora do projeto LAB#, laboratório de crítica de arte e publicação de 2010 a 2014. Atualmente é uma das artistas representadas pela FAROL galeria de arte (http://www.farolshow.com.br/br/)

Principais exposições: 2015 – LIMIAR em SIM Galeria, Curitiba-PR. 2014 – O que me escapa Prêmio Bolsa Produção em artes Visuais, Museu de Gravura da Cidade de Curitiba. – Táticas para trocas e atravessamentos, Fundação SESI, Curitiba-PR. 2012 – Unhemlich ou o estranho familiar em Tardanza escritório de arte, Curitiba-PR. 2011 – EUSSOUTRO SOUMOS em Museu da Gravura da Cidade de Curitiba. 2008 – Salão de Novos de Joinville em Galeria de Arte Victor Kursancew, Joinville-SC.

Principais textos críticos: 2015 – Sobre o cálculo das superfícies, exposição Sólidos do artista Daniel Duda no MUMA, Curitiba-PR. Apagogia para RECIBO 56 – Brasil Distópico, organizado por Fabio Moraes e Traplev. 2014 – Entrevistas críticas. 2013 – Do que é possível ser dito e se fazer ver. 2012 – O texto como obra e a obra como crítica, em Reposicionamentos da Crítica – levantamento, discussão e especulacionismo, organizado por Leonardo Araújo, p. 47 – 49. 2011 – Arte e Capitalismo: “Além da Crise” na 6a Ventosul Bienal de Curitiba, LAB# 4.

Samuel Dickow

Samuel Dickow é natural da cidade de Curitiba, local onde reside. Atualmente trabalha em diálogo com a pintura e a fotografia para formalizar questões poéticas e produzir experimentações. Pensa sua pesquisa a partir da interdependência entre a imagem fotográfica e a pintura para refletir no objeto de arte percepções a cerca da temporalidade da imagem e seu conteúdo histórico. Sua produção é dividida em diversas séries de experimentações com a linguagem pictórica, reflexo de uma pesquisa que se pensa como “uma imersão no mundo sensível e sua emersão no mundo das representações”. O artista é formado em Artes Visuais pela Universidade Tuiuti do Paraná em 2010. Entre 2012 e 2014 participou da 6ª edição projeto Bolsa Produção da cidade de Curitiba. Em 2014 expos uma individual “Sem Título” no Museu da Gravura e da Fotografia da Cidade de Curitiba e outra “O Óbvio Improvável” na Farol – Galeria de Arte e Ação com a curadoria de Keila Kern e Margit Leisner. Em 2013 participou da Mostra Sesi Arte Contemporânea com o trabalho “Dispositivos Móveis”, texto crítico do trabalho de Arthur do Carmo. E no início de 2015 participou da exposição coletiva “LIMIAR”, na Galeria SIM em Curitiba, com a curadoria de Arthur do Carmo e Tony Camargo.


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